O Lés‑a‑Lés é mais do que um evento de mototurismo. É uma travessia emocional do país, feita ao ritmo das estradas nacionais, regionais e rurais, longe das autoestradas e das pressas modernas.
Aqui, cada curva tem memória, cada aldeia tem voz, e cada participante segue um percurso desenhado ao detalhe num road‑book que mistura orientação, descoberta e pequenas cápsulas de história local.

Ao longo de vários dias, centenas de motociclistas cruzam Portugal de uma ponta à outra ou melhor, de Lés-a-Lés, passando por serras, vales, planaltos, vilas e museus improváveis.
O road‑book funciona como fio condutor: indicações de navegação, notas sobre património, curiosidades sobre tradições e apontamentos sobre figuras locais que ajudam a transformar o trajeto numa narrativa contínua.
No fundo, este substituto do GPS transforma cada etapa numa experiência de descoberta consciente. É ele que garante que o Lés‑a‑Lés não é apenas uma travessia — é uma forma de ver Portugal com atenção, ao ritmo das estradas que contam histórias.
O espírito do evento vive dessa combinação rara: máquinas clássicas ou modernas, pessoas de todas as idades, e um país revelado por dentro, longe das rotundas repetidas e das vias rápidas que escondem o que realmente importa.
O primeiro dia do Portugal de Lés‑a‑Lés costuma ser sinónimo de verificações técnicas, reencontros e o tradicional passeio de abertura.
Mas na 28.ª edição, a organização decidiu romper a rotina e levar centenas de motociclistas a um lugar onde as motos não entram — a ilha da Culatra. O resultado foi uma estreia absoluta: um Lés‑a‑Lés que começou no mar, numa travessia que multiplicou por três a população local e revelou o pulmão marinho do Sotavento algarvio.


A ideia parecia ousada, quase improvável. Transportar todos os participantes para uma das ilhas‑barreira da Ria Formosa exigiu uma logística de verão em pleno evento de mototurismo. Mas o desafio foi superado com distinção.
O barco Mira Sado fez viagens consecutivas entre Faro e Culatra, numa azáfama que, como recordou Geraldo Carmo, presidente da Associação de Moradores da Ilha da Culatra, “só se vê por alturas das Festas de Nossa Senhora dos Navegantes”.
À chegada ao porto, os motociclistas foram recebidos por pescadores e ostreiros dos Conquistadores de Guimarães, num momento tão inesperado quanto divertido. Entre brincadeiras e demonstrações das artes locais, os visitantes descobriram uma comunidade que vive do mar e que mantém ativas 60 a 70 embarcações de pesca, além de um crescente negócio de ostras.
A ausência de carros na ilha cria uma atmosfera única: ruas pedonais, casas simples, histórias de pescadores que remontam ao século XIX e uma paisagem marcada por viveiros, dunas e aves que habitam este ecossistema protegido. Muitos participantes aproveitaram para explorar os três núcleos populacionais — Culatra, Hangares e Farol — e visitar o farol do Cabo de Santa Maria, o ponto mais a sul de Portugal Continental.
Antes da aventura marítima, o dia arrancou às 8h30 com as verificações técnicas e documentais no Largo de São Francisco. Luzes, piscas, pneus, documentos: tudo afinado para a grande travessia. Depois, passagem pelo palanque de partida no Jardim Manuel Bívar e uma curta deslocação até ao Cais Comercial, onde os participantes embarcaram para uma viagem de 45 minutos pelos canais da Ria Formosa.
Nem todos seguiram para a ilha. Alguns participantes, habituados à Culatra, optaram por explorar Faro, visitando o Museu Marítimo “Almirante Ramalho Ortigão” e o Museu Municipal, instalado no antigo Convento de Nossa Senhora da Assunção. Claustros renascentistas, coleções arqueológicas e histórias da cidade ofereceram uma alternativa cultural ao passeio marítimo.

Este primeiro dia estabeleceu o tom da edição: descoberta, proximidade com as comunidades locais e uma viagem que é sempre mais do que quilómetros. Amanhã, os participantes deixam o mar para trás e enfrentam os 425 km da primeira etapa, ligando Faro a Alcochete — uma jornada longa, exigente e repleta de paisagens que fazem parte da alma do Lés‑a‑Lés.





















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