A primeira grande etapa do 28.º Portugal de Lés‑a‑Lés confirmou aquilo que todos antecipavam: um dia longo, exigente e cheio de surpresas, marcado por 425 quilómetros entre Faro e Alcochete, sob um calor intenso que ampliou cada dificuldade e tornou cada conquista ainda mais saborosa.
A caravana arrancou às 6h da manhã, fugindo à canícula que se adivinhava. A saída de Faro fez‑se por entre laranjais, alfarrobeiras e figueiras, numa despedida do Algarve turístico para entrar num Algarve interior, rural e surpreendente.

Logo ali, a placa da mítica N2 — com os seus 738,5 km até Chaves — lembrava que esta jornada não era apenas uma etapa: era uma travessia de caráter.
A aldeia de Alte, com as suas casas caiadas e chaminés rendilhadas, foi um dos primeiros pontos altos. A caravana não viu a famosa Queda do Vigário, mas viu algo ainda mais raro: as “vaquinhas” do Moto Clube de Albufeira, personagens que já fazem parte da mitologia do evento.
A subida ao Alto do Malhão, conhecida da Volta ao Algarve, trouxe memórias de ciclistas como Ayuso, Vingegaard, Evenepoel e o nosso João Almeida. Mas houve algo que nem os ciclistas fizeram: a travessia a vau da ribeira de Odelouca, que este ano estava reduzida a um fio de água.
O pó levantado pelo calor foi “lavado” no Oásis de São Marcos da Serra, com sumo natural de laranja, bolos “Esses” e café de panela com casca de limão — um dos momentos mais saborosos da etapa.
Em Monchique, o tradicional Bolo do Tacho, inscrito no Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial, fez as delícias dos participantes. Mais tarde, já na Costa Vicentina, foi tempo de, pela mão da Honda Portugal, experimentar as Bolas de Berlim que contam já com estatuto de lenda.
Pelo caminho, houve ainda tempo para um desvio ao Cabo Sardão, onde o farol construído “ao contrário” continua a intrigar engenheiros e visitantes. E, como se não bastasse, surgiram zebras, avestruzes e antílopes — um safari inesperado antes da descida para a praia do Carvalhal.

Abela parou para receber o Lés‑a‑Lés
Fica às portas da turística «Porto Covo», a freguesia de Abela que, por estes dias, parou para bem receber tão longa caravana. Transformada em romaria, com açorda alentejana, doces regionais, música de baile e uma receção que deixou todos de “queixo no chão”. Liderada por Guida e Josélia, a aldeia mostrou como o Lés‑a‑Lés é também encontro entre comunidades.
A travessia do Sado pela Herdade de Benagasil trouxe areia fofa e alguns sustos. Foi aqui que Sameiro Sá Carneiro, estreante aos comandos da sua Honda CB500F, viveu o momento mais desafiante do dia. Depois de 20 edições como pendura, decidiu enfrentar a maratona como piloto — e foi o marido quem atravessou a zona mais traiçoeira, preocupado com a segurança… e talvez com a oficina.
Na Herdade da Barrosinha, os participantes reencontraram famílias afetadas pelas cheias de janeiro, que destruíram quase uma vintena de casas. O Grupo de Ação Motociclista ajudou a equipar as habitações, e o Oásis Cam‑Am tornou‑se um momento de partilha e emoção.
A etapa terminou em Alcochete, onde três motoclubes locais serviram o jantar na Avenida D. Manuel I. A festa no palanque marcou o final de um dia longo, duro e inesquecível.

Amanhã, a caravana segue para São Pedro do Sul: 413 km, mais de 11 horas de viagem e uma nova história para contar.





















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